MoovrIdeias em movimentoArtigo original ↗
Reflexão · Flavio Tavares

A religião
da muleta.

Você não precisa encontrar o milagre.
Precisa parar de se esconder.

FT
Flavio Tavares13 maio 2026 · min de leitura
↓
Da dependência ao movimentoUma decisão que tem o seu nome.

Existe uma religião silenciosa entre aqueles que buscam alta performance. Ela não tem templo, não tem livro sagrado, não tem padre ou pastor. Mas tem dízimo, tem culto, tem fé cega, e tem milhões de fiéis.

É a religião da muleta.

Você já é membro. Provavelmente paga o dízimo todo mês. Talvez esteja, neste exato instante, ajoelhado diante de algum altar, um tráfego pago, um social media novo, uma planilha redentora, um guru messiânico, um método de cinco passos que vai finalmente mudar tudo.

E o curioso é isso: você se chama de empresário, de líder, de uma pessoa de movimento. Mas a sua liturgia diária é a de um devoto desesperado, esperando que alguém, ou alguma coisa, desça do céu e faça por você o que só você pode fazer.

Eu sei disso porque eu já fui um deles. E porque, em alguma camada, ainda sou.

01 /O salvador que nunca chega

Toda semana eu sento na frente de pessoas de negócios, com muita conquista, muito histórico, e eles me dizem a mesma frase, com palavras diferentes:

“Flávio, eu já tentei tudo.”

E quando você desce a camada, é sempre a mesma confissão. Já tentou o coach. Já tentou a agência. Já tentou o método importado. Já tentou o gestor de tráfego que prometia escala. Já tentou o curso de oito horas no fim de semana. Já tentou o terapeuta. Já tentou o livro. Já tentou mastermind.

Tentou tudo, menos uma coisa: fazer.

Tentou tudo, menos a única coisa que nunca pode ser terceirizada, a decisão de levantar e construir com as próprias mãos aquilo que ele foi chamado a construir.

E a frase que mais me cala por dentro, ouvida tantas vezes que perdeu o efeito de surpresa, é esta: “Eu quero ver fazer. Mentor só fala. Eu quero ver fazer.”

Toda vez que escuto isso, eu penso a mesma coisa, mas raramente digo em voz alta: cara, o problema não é o que o mentor faz. O problema é que você ainda acredita, aos seus quarenta e tantos anos, que existe alguém no universo cujo trabalho é fazer por você o que só você pode fazer.

Você não está procurando mentor. Você está procurando uma mãe.

02 /O novo Baal se chama Instagram

A religião da muleta é tão sofisticada que ela se atualiza. Ela troca de roupa a cada cinco anos.

Nos anos 2000, era o consultor. Nos anos 2010, foi o coach. Em 2020, virou o gestor de tráfego. Agora, em 2026, virou o social seller, o DM no Instagram, o funil automatizado, o agente de IA que vai prospectar por você enquanto você dorme.

A ferramenta muda. O fiel é o mesmo.

E aqui está o ponto mais incômodo desse artigo, então vou escrever devagar pra você não conseguir fugir: a maior tragédia do empresário brasileiro hoje não é não saber prospectar. Não é não dominar Instagram. Não é não entender algoritmo. A maior tragédia é ter confundido ferramenta com postura.

Você ouve falar de prospecção ativa e traduz dentro da sua cabeça como “mandar DM o dia inteiro”. E aí você passa seis meses mandando DM, não vende, e conclui que “DM não funciona”. Troca de ferramenta. Vai pro WhatsApp. Não funciona. Troca de novo. Vai pro tráfego. Não funciona. Troca. Vai pro evento. Não funciona.

Você nunca para pra perceber que não é a ferramenta que não funciona. É você que ainda não mudou.

Prospecção ativa é tática. Mentalidade ativa é transformação. E enquanto você não entender essa diferença, você vai trocar de muleta o resto da vida achando que está evoluindo, quando na verdade está só redecorando o templo da sua dependência.

03 /O caçador e o construtor

Existem dois tipos de pessoas no mercado. E eu preciso que você se reconheça em uma delas agora, sem maquiagem.

A primeira é o caçadora de coelho. Ela acorda todo dia farejando oportunidade. Olha pro mercado como uma floresta cheia de presas. Está sempre atrás do próximo lead, do próximo lançamento, da próxima onda, do próximo método. Vive de sorte travestida de estratégia. Quando o coelho aparece, ela come. Quando não aparece, ela passa fome, e culpa o algoritmo, a crise, o governo, o mercado, a sua audiência fria, o seu time fraco, o seu mentor que não entrega.

A segunda é o construtora de floresta. Ela não persegue coelho. Ela planta árvore. Ela cria ambiente. Ela constrói terreno onde a abundância nasce porque o solo está pronto pra que ela nasça. Ela não depende da sorte do dia, porque ela construiu o ecossistema que produz movimento.

O caçador vive de prospecção ativa. O construtor vive de mentalidade ativa.

E o problema não é que o caçador seja burro. O problema é que ele se acha esperto. Ele acha que está sendo eficiente, ágil, focado em ROI. Quando, na verdade, está apenas executando, com mais sofisticação, o mesmo movimento primitivo de quem sempre depende do que aparece pra sobreviver.

Construtor de floresta nunca passa fome. Porque ele não come o que aparece. Ele colhe o que plantou.

04 /A desculpa, esse imposto invisível

Toda semana, todo pessoa que eu mentoro, e eu inclusive, paga um imposto invisível. Um imposto que ninguém vê na contabilidade, mas que come o resultado do mês inteiro.

É o imposto da desculpa.

“Não deu certo porque o lead estava frio.” “Não deu certo porque o time não está pronto.” “Não deu certo porque a Maria não confirmou.” “Não deu certo porque o filmmaker atrasou.” “Não deu certo porque o mês foi atípico.” “Não deu certo porque o cliente sumiu.”

Aí fica indignado com o resultado, mas não percebe que construiu, com as próprias mãos, a engenharia perfeita pra não dar certo. Porque toda desculpa é uma pré-justificativa do fracasso. Toda desculpa é um pedido de licença antecipado pra não fazer o que precisa ser feito.

E o pior é que essa engenharia é sutil. Ela se disfarça de planejamento. Se disfarça de estratégia. Se disfarça de “estou esperando o momento certo”. Se disfarça de “preciso entender melhor antes de agir”. Se disfarça de tudo, menos do que ela realmente é: medo terceirizado com nome de negócio.

A mentalidade ativa é zero excuses. Não é uma frase bonita pra estampar em camiseta. É uma decisão diária, brutal, sem anestesia, de cortar pela raiz qualquer narrativa que tente te tirar do banco dos réus do seu próprio resultado.

05 /Deus já te deu tudo

E aqui vai a parte que talvez incomode mais do que tudo que eu já escrevi até aqui.

Eu acredito, com uma convicção que não se discute, que Deus já entregou em você tudo o que ele sonhou pra você. Não falta dom. Não falta talento. Não falta inteligência. Não falta capacidade. Não falta gente ao seu redor. Não falta capital, no sentido amplo da palavra.

Falta movimento.

Você não está esperando uma graça nova de Deus. Você está procrastinando a graça que ele já te entregou. E a oração mais honesta que alguém pode fazer hoje não é “Senhor, abre as portas”, é “Senhor, me arranca da poltrona.”

Porque se Abraão, mesmo com promessa direta de Deus, tentou terceirizar a coisa e fazer filho com a empregada pra acelerar o plano, imagine você, que ainda fica esperando o seu social media te salvar.

E Deus, na sua fidelidade, vai cumprir a promessa mesmo assim. Mas o atalho da bengala te custa anos. Te custa décadas. Te custa filhos crescendo enquanto você “tenta encontrar o caminho”. Te custa um casamento que esfria enquanto você “espera a virada”. Te custa uma vida inteira gasta procurando a chave de uma porta que sempre esteve destrancada.

06 /A pergunta que ninguém quer responder

Eu vou parar por aqui. Não vou te dar cinco passos. Não vou te entregar checklist. Não vou te oferecer plano de ação. Porque se eu fizer isso, eu mesmo viro a próxima muleta da sua coleção. E eu me recuso a ocupar esse lugar na sua vida.

O que eu vou te deixar é uma pergunta. Uma só. Mas você precisa responder ela em voz alta, em algum momento das próximas 24 horas, olhando pra alguém, ou olhando pra você mesmo no espelho:

O que eu estou esperando, exatamente, pra fazer o que eu já sei que precisa ser feito?

Se a resposta tiver nome de ferramenta, é muleta. Se a resposta tiver nome de pessoa, é muleta. Se a resposta tiver nome de circunstância, é muleta. Se a resposta tiver nome de momento, é muleta.

Só existe uma resposta honesta possível. E ela tem o seu nome.

O resto é religião.

O movimento
começa em você.

Se quiser continuar essa conversa, faça parte da moovr. Eu compartilho por lá toda semana novos temas para pessoas que decidiram parar de terceirizar a própria vida.

Comece o seu movimento com a Moovr ↗